O jornalista William Buckley  (1925-2008) – a mente arquidistinta que concebeu a melhor publicação conservadora da América, a National Review – é celebrado como um notável anticomunista, mas ele afirmava que sua maior missão na Terra era a de “tentar proteger a Direita dos malucos”. Se fosse vivo hoje, o combativo conservador teria muito trabalho.

Brotam das terras férteis da demência ideológica hordas de ativistas mirins que se colocam à Direita no espectro político, mas que são guiados pelo mesmo catálogo de crenças ingênuas dos utopistas mais fervorosos – e por isso divergem deles apenas por oferecer dogmas outros.

Sim, eles têm uma religião para vender. E uma santa para servir de inspiração. A santinha dos escoteiros libertários não acreditava em Deus, mas depositava toda fé que tinha no homem – falo da espécie – em sua jornada gloriosa rumo à satisfação de suas próprias vontades (sic).

Monista, otimista e iluminista: uma marxista para a Direita

Monista, otimista e iluminista: uma marxista para a Direita

A filósofa e romancista russa Ayn Rand (1905-1982) seria um perfeita marxista se não tivesse sofrido na pele os horrores da União Soviética. O materialismo randiano é uma fórmula muito próxima ao materialismo dialético de Karl Marx (1818- 1883).

Diferente, claro, mas vizinho.

O materialismo randiano sustenta que há um jeito certo de se viver, informado pela Razão e observado diretamente na Natureza, que é fundamentado numa moralidade egoísta que identifica o indivíduo como única realidade social e centro de todo dilema moral.
Ayn Rand vende uma fórmula ideológica cujos ingredientes são conhecidos dos marxistas: o monismo (uma grande verdade da qual descendem todas as outras), a fé na Razão (por meio dela resolvemos até os nossos dilemas morais) e o otimismo antropológico (o homem é detentor das virtudes e sabedoria necessárias para moldar seu destino como bem quiser).

Temos acima listados todos os ingredientes das utopias selvagens que devastaram o mundo em séculos passados. É claro que aquele jovem coberto de espinhas, que se autoproclama guardião da liberdade, não enxerga perigos aqui. O jovenzinho sectário reduziu toda a complexidade da realidade social aos dogmas da sua santinha. Isso nem é novidade.

Monismo: lar do objetivista e do marxista

O homem autossuficiente: a utopia de libertários e marxistas

O homem autossuficiente: a utopia de libertários e marxistas

Eu duvido que os escoteiros libertários tenham perdido mais de 10 minutos de suas vidas deploráveis com a leitura de qualquer obra digna de reflexão. Ou eles dominam as noções clássicas que norteiam o debate político moderno como, por exemplo, o conceito de “liberdade dos antigos e liberdade dos modernos” de Benjamin Constant (1767-1830)?

Para dar uma surra na criançada, nada melhor que as palmadas de um sábio cético. Sir Isaiah Berlin (1909-1997) também viu de perto o horror soviético. Mas o filósofo entendeu desde cedo que ideologia não se combate com ideologia. “Eu não creio que a resposta ao comunismo seja uma contrafé, com igual ardor e militância”, dizia o inglês que veio da Letônia.

Isaiah Berlin: um sábio cético contra os delírios monistas

Isaiah Berlin: um sábio cético contra os delírios monistas

A obra de Berlin é uma vacina atemporal aos delírios monistas. Lembrem-se: o monismo é a crença ingênua de que um único princípio geral é capaz de explicar a totalidade da realidade.

Quando transferido para a política, é uma tentativa de reduzir o mundo a uma ideologia.

A filosofia randiana – tal como seu vizinho ideológico, o marxismo – é exemplo perfeito de monismo. Ayn Rand entendia que todo ser humano que não coloca a sua versão infantil de liberdade no topo da hierarquia de valores é um alienado e precisa ser convencido ou combatido. A velha mentalidade esquerdista em ação.

Para a filósofa russa, assim como para todo monista, há somente uma verdade máxima que deve conciliar todos os valores sob sua égide. Se a realidade é regida por um princípio único, os que não vivem de acordo com tal princípio são imbecis ou monstros imorais.

Objetivismo e o marxismo, cada qual com sua receita de bolo de mundo perfeito, dizem exatamente isso.

Um libertário típico alertando os alienados sobre o estatismo

Um libertário típico alertando os alienados sobre o estatismo

Para o objetivista, a Razão informa ao homem que a liberdade (ou melhor, a versão randiana de liberdade) é o valor máximo sob o qual ele deve construir sua vida. O marxista diz o mesmo, mas se referindo ao igualitarismo. Ambos prometem um estado utópico de felicidade.

É claro que a defesa do princípio máximo que rege a vida – o único pelo qual vale a pena viver – justifica qualquer sacrifício. Não é por acaso que marxista e objetivista têm demandas radicais: de um lado o fim da propriedade privada; do outro a submissão total à propriedade.

Por isso temos escoteiros libertários clamando por governo altamente limitado (não importa se o fim do complexo militar estatal compromete a defesa da nação) e dinossauros marxistas clamando pelo Estado total (não importa se o indivíduo é esmagado pelo seu salvador).

O que o move o libertário e o marxista em seus surtos de radicalismo é a pureza ideológica. A premissa deve ser seguida até as últimas consequências. O dogma é o guia inquestionável.

Pluralismo

bitch is back

Ayn Rand voltou dos mortos com seu marxismo de Direita

 

Contra esse radicalismo utópico, Isaiah Berlin apresentou uma apologia do pluralismo: o reconhecimento de que os homens perseguem diferentes valores, que são inconciliáveis em sua máxima expressão. A total harmonia entre eles é impossível. Só o que podemos fazer é administrar pacificamente o conflito de valores no fórum que é a democracia liberal.

Ao se deparar com os abusos da URSS, a santinha dos libertários concluiu que o erro dos soviéticos era que eles veneravam a ideologia errada. Ela não identificou que a raiz do problema era a própria mentalidade monista. O conteúdo e a forma eram equivocados.

Isaiah Berlin entendeu que não se trata apenas de defender o dogma ideológico correto. A defesa da liberdade implica em reconhecer e aceitar o pluralismo de valores. Ayn Rand reduziu a complexidade da realidade à sua filosofia. Berlin nos legou o antídoto contra tais delírios monistas.

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