socialista

Jean-Paul Sartre fazia uma brilhante e sutil distinção entre rebelde e revolucionário. É uma leitura que se aplica surpreendentemente bem ao meio protestante brasileiro.

Sartre dizia que o revolucionário estava empenhado na transformação radical do mundo e conspirava sinceramente pela realização deste objetivo. O revolucionário não se interessava pela estética da rebelião ou em manter uma pose de contraire.

Por sua vez, o rebelde secretamente desejava a manutenção do status quo para que ele pudesse continuar a se rebelar continuamente.

O rebelde não está sinceramente interessado em qualquer mudança profunda, mas apenas em manter sua pose de rebelde.

Rafael* é um evangélico progressista.

Ele sabe que sua denominação, seus irmãos e sua própria fé têm um caráter de forte resistência diante do otimismo que marca a visão progressista. Ele sabe que o meio protestante é socialmente conservador.

E embora escreva artigos, faça palestras e grave vídeos dizendo que não gostaria que fosse assim, Rafael deseja secretamente que tudo continue exatamente como está no meio protestante para que ele possa continuar se destacando entre os seus.

Rafael é um estridente defensor da legalização do aborto justamente porque a maioria dos evangélicos se manifesta contra ela.

Ele tem um prazer especial em provocar seus pais e amigos próximos lembrando sua condição de crente que apoia o aborto.

É claro que, ao mesmo tempo em que defende o aborto de bebês, Rafael se preocupa com a preservação da natureza e os filhotes de tartaruga-marinha.

Rafael escreve textos raivosos denunciando Geraldo Alckmin como um “fascista” porque acha que o governador é direitista demais.

Mas em outros textos ele descreve a Venezuela como uma democracia popular avançada, ignorando a repressão de Nicolas Maduro contra estudantes que têm sua mesma idade e professam a mesma fé.

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Rafael faz questão de assinar e divulgar manifestos de apoio à ditadura cubana, sempre enfatizando que simpatiza com tais ditaduras simplesmente porque é um evangélico que enxerga nos regimes comunistas a aplicação dos ensinamentos de Cristo.

Esquizofrenia

Rafael é, ao mesmo tempo, simpatizante da causa LGBT e fã ardoroso de Che Guevara, ignorando o fato de que o famoso guerrilheiro era um homofóbico declarado e assassino que não poupava do paredão qualquer um que discordasse de suas ideias.

Não interessa a Rafael manter uma a coerência nas suas posições ou preservar sua integridade intelectual.Só o que lhe interessa é chocar os seus próximos. Se ele usa dois pesos e duas medidas para fazê-lo, pouco lhe interessa.

Ele quer se garantir como ovelha negra.

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Defensor contumaz de todas essas criaturas autoritárias, Rafael se vende no meio protestante como um simples democrata progressista. Ou alguém que “segue os passos de Cristo”.

Rafael odeia a hierarquia eclesiástica e considera a maioria dos pastores uns charlatões ou ladrões que roubam o povo humilde.

De vez em quando, o seu Geraldo, pai de Rafael, concorda com alguma  ideia do filho. Até um relógio quebrado acerta uma vez por dia.

O interessante é que nessas ocasiões Rafael radicaliza o seu discurso. Parece que ele o faz justamente para se diferenciar do pai e resgatar sua posição de crente progressista.

Rafael faz questão de se apresentar como evangélico na sua faculdade, onde estuda sociologia.

Isso lhe rende um bom status: os seus colegas louvam a sua coragem em manter sua postura progressista em um ambiente de fundamentalistas estúpidos que não aceitam o mundo como ele é.

(Mas, pelas regras de Rafael, até Jesus seria um alienado).

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Para os seus amigos marxistas-ateus-de-boutique, Rafael é o equivalente cultural do budista vegetariano de classe média ou do jovem católico que tem fé na Teologia da Libertação.

Aliás, é desnecessário dizer, Rafael acredita mais na Missão Integral do que na Bíblia. Os Evangelhos só ganham sentido pra ele a partir da ideologia.

A única leitura que ele admite dos textos sagrados é aquela feita a partir dos dogmas progressistas; todas as outras são falsas, equivocadas ou “ideologicamente orientadas” – como se o marxismo embutido na Missão Integral fosse algo ortodoxo.

Rafael diz acreditar que a redenção em Cristo é a única salvação para o mundo. Mas está pouco se lixando para Cristo.

Ele deseja secretamente que o mundo continue podre como sempre foi. Para que ele possa brincar de militante do “outro mundo possível”.

Rafael não quer salvação, redenção ou qualquer mudança de verdade neste mundo afundado em profundas trevas. O que ele quer mesmo é continuar apavorando no meio protestante.

Rafael é um rebelde.

(* O texto não se refere a nenhum Rafael em particular.)

 

 

 

 

 

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