Uma Exegese de Hebreus 6:4-6 / Parte 2

É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados e provaram o Dom celestial e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que de novo estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus, e expondo-o à ignomínia.

Na análise desse texto serão destacadas as seguintes palavras-chaves: foram iluminados, provaram o dom celestial, tornaram-se participantes do Espírito Santo, a boa palavra de Deus, os poderes do mundo vindouro, caíram e impossível outra vez renová-los para arrenpendimento.

foram iluminados

A palavra grega usada para iluminados é phôtisthentas que quer dizer “a iluminação indica que Deus dá o entendimento e os olhos da luz espiritual” (Michel, 1966; Hughes, 1977 em Rienecker e Rogers, 1995, p. 505).

O escritor canônico deixa claro que em algum momento os crentes alcançaram o entendimento e a luz suficientes para a sua salvação. A idéia de que eles viveram por um período nesse estado é intrínseca ao texto. Não há razão justificável para se acreditar que aquelas pessoas tinham sido iluminadas quanto à compreensão do evangelho, mas que não responderam favoravelmente a tal iluminação como pensam alguns calvinistas.

A mesma palavra grega, phôtisthentas, aparece em 10:32 e ali é usada claramente como um demonstrativo de que as pessoas para as quais estava sendo endereçada tal epístola eram crentes. O autor salienta nessa passagem o seguinte: “lembrai-vos, porém, dos dias anteriores…” Esses “dias anteriores” referem-se aos inícios de suas caminhadas de fé.

Logo, está evidente que o efeito dessa iluminação na vida deles levou-os à conversão.

provaram o dom celestial, a boa Palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro

No grego, provaram é geuomai que, segundo Brooke F. Westcott  “o verbo expressa o desfrutar real e consciente das bençãos apreendidas em seu verdadeiro caráter” (em Rienecker e Rogers, 1995, p. 505).  James Moffatt (em Champlin, 1985, p. 539) diz que essa palavra é uma “metáfora grega helenista contemporânea para indicar experiência.” Em outras palavras, essas afirmativas não deixam margem para a aceitação de uma interpretação que proponha apenas uma experiência rasa, superficial do Espírito Santo. Até porque, como diz Champlin(1985) “o termo provar, nos escritos rabínicos, significa ‘participação’, ‘experiência em’”.

Essa palavra também aparece em 2:9, e, de acordo com Rienecker e Rogers (1999, p. 496), significa provar, sentir o gosto de, experimentar. O versículo 9 em questão fala de Jesus ter provado a morte pelos homens, realidade essa que não pode ser pensada como uma prova parcial e não completa. Logo, podemos perfeitamente admitir, através desse paralelo de passagens, que as pessoas a quem o escritor estava advertindo tinham experimentado, provado, sentido o gosto da vida eterna (dom celestial), do evangelho (palavra de Deus), dos dons do Espírito Santo e da transformação interior (poderes do mundo vindouro). Também podemos, tranquilamente, rejeitar a seguinte explicação calvinista sobre 6:4: “pode significar simplesmente que a compreenderam e tiveram alguma vivência do poder espiritual.” (Grudem, 1999, p. 667).

tornaram-se participantes do Espírito Santo

A palavra grega para participantes é metochos. Os exegetas dizem que essa palavra é usada no Novo Testamento com uma diversidade de significados. Por exemplo: em Lucas 5:7 ela aparece com o sentido de sócio. Aqui, está mais do que claro que a associação entre os sujeitos não passa de uma relação de negócio desprovida de qualquer sinal de intimidade e de apego. Por conta de uma possibilidade gramatical como essa, alguns calvinistas, como o Dr. Wayne Grudem, sugerem que a presença de metochos em Hebreus 6:4 não precisa significar que aquelas pessoas advertidas pelo escritor tenham de fato sido regeneradas pela ação do Espírito Santo.

Mas, é de fundamental importância detectarmos se metochos aparece na epístola aos Hebreus. Antes de aventurarmo-nos em um contexto mais amplo, é salutar que analisemos o contexto mais imediato.

Em 3:1, 14 a mesma palavra é usada e ela está atrelada a situações que envolvem uma real experiência salvífica. No versículo 1 diz: “Por isso, santos irmãos, que participais da vocação celestial…” Em 3:14 está escrito: “Porque nos temos tornado participantes de Cristo…” Como está evidente, nessas duas referências, ser participantes nunca indica uma falta de apego e intimidade salvífica. Metochos também aparece em 12:8, 10, e a idéia de filiação autêntica, real, está presente.

Por que em relação ao Pai e a Jesus Cristo o escritor fala sobre uma participação salvífica e quando refere-se ao Espírito Santo essa participação tem uma conotação diferente? Os calvinistas admitem que nessas últimas referências citadas, o uso da palavra participantes indica sim uma realidade salvífica, mas que em Hebreus 6:4 isso é improvável. Por que será isso? Não pode ser por causa da real possibilidade de queda dos autênticos crentes porque em 3:14 esta possibilidade é admitida claramente. Talvez, a resposta a essa indagação seja a seguinte: “… parece que os calvinistas às vezes apelam a métodos tortuosos, na exegese e na hermenêutica…” (Daniel B.Pecota em Teologia Sistemática, editada por Stanley M. Horton, 1996, p. 376).

Depois dessa constatação do que nos oferece o contexto imediato, podemos encerrar esse breve comentário com as seguintes palavras de Champlin (p. 539):

A questão de terem eles “participado” do Espírito significa que, tendo-se convertido, chegaram a ser habitados pelo Espírito, indicando que foram “dotados” por ele.

caíram

No grego, a palavra é parapipto que traduzida é cair, cair para fora, desviar-se (Rienecker e Rogers, 1999, p. 506). Champlin diz: “verbo usado também para indicar ‘cometer apostasia’. É este último sentido que deve ser entendido aqui”. (1985, p.540). De igual modo, Russel Shedd comenta: “é claro que esta queda se trata de apostasia, a renúncia total da fé em Cristo.” (Bíblia Vida Nova, 1995, p. 262). A razão dessa queda era de ordem doutrinal e litúrgica. Possivelmente, alguns crentes estavam querendo voltar, ou voltaram de fato, às práticas sacrificiais do Levítico (STERN, 2007).

O Novo Testamento atesta, de maneira cristalina, que um crente de fé autêntica pode desviar-se (Mt 24:4-5, 11-13; Lc 9:62, 17:32; Jo 15:1-6; T 11:21-23, 14:21-22; 1Co 15:1-2; Cl 1:21-23; 1Tm 1:19, 4:1, 16, 6:10-12; 2Tm 2:17-18, 4:2-5, 10; Hb 2:1-3, 3:6-8, 12-14; Tg 5:19-20; 2Pe 1:8-11; 1Jo 2:23-25).

Em Gálatas 5:4 Paulo afirma: “da graça decaístes.” A palavra grega traduzida para decaístes é ekpipto. Segundo Herman Ridderbos (1970, em Rienecker e Rogers, 1995, p. 381), ekpipto é “usada originalmente para a queda de uma flor, depois ‘ser separado de alguma coisa’, ‘perder sua parte em.’” Os versículos 1-3 do mesmo capítulo mostra-nos que os gálatas estavam confiando na circuncisão como uma outra base para a justificação deles. Ora, é sabido que Lei e Graça não se mesclam: “… se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará.” (v 2). Logo, buscar outro fundamento para a justificação, depois de ser justificado por Cristo, implica em decair, desviar, abandonar a graça divina.

Calvinistas, tais como os reformados, não admitem de modo nenhum a queda de um genuíno crente. Para eles, se alguém se diz convertido e cai nunca se converteu de fato. J. I. Packer (2004, p. 203) cita a Confissão de Westminster.

Os que Deus aceitou em seu Bem-amado, os que ele chamou eficazmente e santificou pelo seu Espírito, não podem decair do estado da graça, nem total, nem finalmente; mas, com toda a certeza hão de perseverar nesse estado até o fim e serão eternamente salvos. (XVII.1)

O teólogo Henry Clarence Thiessen está de acordo com a declaração de Westminster.

… todos aqueles… que foram justificados… jamais cairão total ou finalmente do estado de graça, mas certamente nele perseverarão até o final. (2000, p. 276)

impossível outra vez renová-los para arrependimento

A força dessas palavras assustam. Mas elas querem dizer o que realmente estão dizendo. Chamo a atenção para a palavra renová-los que quer dizer fazer de novo, e pergunto: como fazer novamente aquilo que nunca foi feito? Está evidente que o escritor não trabalha com a hipótese de estar escrevendo para pseudos cristãos. Para ele, aqueles a quem as advertências são encaminhadas tinha sido feitos novas criaturas pela fé em Cristo Jesus e por isso ele se põe a aventar a real possibilidade da apostasia irreversível. Seria totalmente ridículo, desprovido de sentido, o uso da expressão fazer de novo se nada teria sido feito anteriormente.

O autor sagrado está tratando de um segundo arrependimento visto que no versículo primeiro ele deixa claro que essa era uma experiência pela qual os seus leitores já tinham passado: “… deixemo-nos levar para o que é perfeito, não lançando de novo a base do arrependimento (grifo meu)…”

Grudem, com o seu calvinismo, arrazoa sobre a questão demonstrando que “’arrependimento’ (gr. metanoia) não implica necessariamente arrependimento íntimo do coração para a salvação” (1999, p. 667-668). Ele cita como exemplo as passagens de Hb 12:17; Lc 17:3-4 onde, respectivamente, a palavra metanoia (arrependimento) e o verbo cognato metanoeo (arrepender-se) aparecem indicando não um arrependimento íntimo, profundo, do coração para a salvação.

Ele articula-se desta maneira exatamente para fazer-nos crer que os sujeitos alertados pelo escritor canônico não são verdadeiros conversos. Todavia, apesar de Grudem estar certo quanto aos sentidos que a palavra grega metanoia pode assumir, está mais do que evidente que no caso aqui tratado ela indica um arrependimento vinculado à conversão autêntica – em um primeiro momento – e depois indica que o indivíduo converso poderá deixar de experimentar o mesmo arrependimento se não se mantiver em contato com Deus (cf. PEARLMAN, p. 173).

Concluindo, a razão da advertência bem detalhada pelo escritor aos seus leitores, representada aqui e agora por esta última, é que o caminho da apostasia implica em estar, novamente, “crucificando para si mesmos o Filho de Deus, e expondo-o à ignomínia.” (v 6). Alguns exegetas como Russel N. Champlin (1985), Philip E. Hughes (1977) e F.F. Bruce (1977) – esses últimos citados por Reinecker e Rogers, p. 506 – chamam a atenção para o tempo particípio presente da frase “de novo estão crucificando”, que indica uma continuidade da crucificação de Jesus Cristo, Filho de Deus, devido à apostasia.

O escritor aqui não sugere que se tais indivíduos que se enveredam por tal caminho e venham porventura deixar essa continuidade apóstata, podem encontrar novamente lugar de arrependimento. Lembre-se da frase, ”é impossível outra vez renová-los para o arrependimento.” O caso aqui tratado é o de chegar a um ponto sem retorno. Agora, há como se definir tal estado a priori? Não! Por isso, é de vital importância não negligenciar as seguintes Escrituras:

… diz o Espírito Santo: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações… (Hebreus 3:7-8)

De quanto mais severo castigo julgais vós será considerado digno aquele que calcou aos pés o Filho de Deus, e profanou o sangue da aliança com o qual foi santificado, e ultrajou o Espírito da graça? (Hebreus 10:29)

Por Pr Zwinglio Rodrigues

Referências

Bíblia Vida Nova. São Paulo: Vida Nova; Brasília: Sociedade Bíblica do Brasil, 1995.

CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento Interpretado Versículo Por Versículo. São Paulo: Millenium, 1985.

GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999.

PACKER, J. I. Teologia Concisa. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.

PEARLMAN, Myer. Conhecendo as Doutrinas da Bíblia. São Paulo: Vida.

PECOTA, Daniel B. A Obra Salvífica de Cristo. In: HORTON, Stanley M. Teologia Sistemática. Rio de Janeiro: CPAD, 1996.

RIENECKER, Fritz e ROGERS, Cleon. Chave Linguística do Novo Testamento Grego. São Paulo: Vida Nova, 1995.

STERN, David H. Comentário Judaico do Novo Testamento. São Paulo: Didática Paulista; Belo Horizonte: Atos, 2008.

THIESSEN, Henry Clarence. Palestras em Teologia Sistemática. São Paulo: Batista Regular, 2000.

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One Response

  1. Pr. Zwinglio,

    O post está muito bom.

    Existe uma outra possibilidade de interpretar essa passagem: os crentes (genuínos) que se enquadram na situação do versículo não perdem a sua salvação, posto que foram verdadeiramente regenerados e são templo e morada do Espírito Santo. Todavia, por retornarem a práticas legalistas, tornam-se inúteis ao propósito de Deus para a sua vida, não alcançam o final da carreira e, por isso, sofrem o dano, perdem a coroa, e são salvos “como que através do fogo”.

    Esta interpretação poderia ser resumida nesta frase: “Salvos, mas desqualificados”.

    Em Cristo,
    Vinícius

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