Soldado Medeiros, o Brasil e a Igreja
Hoje é feriado aqui no estado da Bahia. Nesta data de 2 de julho de 2009 estamos comemorando 186 anos da Independência da Bahia (alguns historiadores dizem que esta deveria ser a data da Independência do Brasil e não o 7 de setembro). Dentre os vários heróis que estão envolvidos com nossa Independência, eu gostaria de destacar a pessoa do “Soldado Medeiros”, um soldado destacado por sua bravura, espírito de liderança e disposição de doar-se sem reservas para que o domínio de Portugal fosse definitivamente obliterado.
Deixando para trás um compromisso de noivado e desobedecendo ao pai que não queria o seu alistamento com a ajuda de uma irmã e do cunhado, lá se foi o “Soldado Medeiros” para a vila de Cachoeira se alistar. Alistado, depois de duas semanas, seu pai, procurando-o, o encontra. Este encontro foi espetacular! Neste momento, o que se dava não era só o encontro de um pai com o seu filho, a respeito do qual, ele, o pai, queria por que queria impedí-lo de estar na linha de frente dos combates. Este momento foi o momento de uma revelação espantosa! A real identidade do “Soldado Medeiros” foi revelada! Sim, revelada! Aquele “Soldado Medeiros” não era o que ele dizia ser. Na verdade, ele não era ele, mas era ela. Isso mesmo! O “Soldado Medeiros” era uma mulher chamada Maria Quitéria.
Ela, com a ajuda da irmã, cortara o cabelo em formato masculino, vestira-se de trajes de homem e, desta maneira conseguira se alistar. Enganou a todos! Seu pai, decidido levá-la de volta para casa foi impedido pelo Major José Antonio da Silva Castro porque este via em Maria Quitéria habilidades para a luta armada. Desta maneira, acabou por prevalecer o desejo patriótico, justo e doador de Maria Quitéria que fora, definitivamente, incorporada ao chamado Batalhão dos Periquitos. Daí segue-se uma série de batalhas…
Em 2 de julho de 1823 ela entra triunfante em Salvador com o “Exército Libertador” e é recebida com honrarias e reconhecimentos.
Muito bem. Além de desejar chamar a atenção para a importância desta data e do seu teor histórico, eu gostaria de chamar a atenção também, em particular, para o fato do disfarce arquitetado e posto em prática por esta mulher excepcional e, deste fato, eu quero salientar a palavra disfarce para dela falar um pouco de maneira contextualizada.
O significado da palavra disfarce não é muito digno e me assusta. Ele trafega por definições tais como dissimulação, fingimento e falsa aparência. Para mim, é evidente que a aplicação do significado da palavra disfarce, segundo o que nos apresentam os dicionários, sobre Maria Quitéria não cabe. Aquelas definições só podem se relacionar com ela quanto ao seu visual masculino, ou seja, quanto à exterioridade, mas nunca quanto ao seu caráter e a sua têmpera, pois as intenções íntimas dessa mulher foram marcantemente nobres.
Já atualizando as coisas, penso não estar errado em afirmar que em relação a algumas personalidades brasileiras atuais o que mais às caracteriza é o disfarce no seu sentido negativo.
Nossos Políticos, o Senado Federal e a Câmara dos Deputados
Falar dos políticos brasileiros causa náuseas e constrangimentos. A crise atual no Senado da República com os seus Atos Secretos atestam isso. Senadores do PMDB, PT, DEM, PR, PRB, PTB e PSDB constam na lista dos que foram beneficiados com tais Atos Secretos [vide nome deles aqui]. Quer dizer, dos maiores e mais importantes partidos políticos do país, não escapa nenhum.
Segundo informações da mídia, esses Atos Secretos podem passar de 600 e alguns juristas já se manifestaram dizendo que os mesmos ferem a Constituição. Alguns desses Atos são nomeações de parentes, criação de cargos para aumentar salários, inclusive, sem publicação oficial, etc. Há um caso de um servidor que recebia quatro contra-cheques que somados davam o valor de R$ 29.000. O teto constitucional do serviço público é de R$ 24.500 que fora driblado descaradamente. Mas o trabalhador normal não recebe apenas um contra-cheque?
Mas não é só isso. Ainda preciso destacar aqui os partidos dos senadores que assinaram esses famigerados Atos Secretos. Tem gente do PT, PMDB, PSB, DEM, PTB e PR [você pode encontrar o nome dessas excelências no link acima destacado].
Não podendo me esquecer, quero ainda dar um destaque aqui à Câmara dos Deputados. Você se lembra do deputado do Castelo? Pois é, ele saiu incólume do processo do Conselho de Ética. Digo incólume porque o que ele merecia era a cassação mas, infelizmente, isso já está descartado. O máximo que ele poderá receber como punição é um afastamento de 6 meses, ou seja, vai descansar e se “refestelar” de outra maneira. Os eticistas de peso da história universal que já estão nos túmulos devem estar até agora revirando-se nos mesmos.
O fato é que essa tropa, quando busca se eleger, apresenta-se como pessoas sérias, comprometidas com a ética e a verdade, mas quase sempre acabam por se evidenciarem como sujeitos disfarçados de sério, éticos e verdadeiros. Eles são diametralmente diferentes da exemplar Maria Quitéria, mulher pobre e iletrada. Eles se apresentam como são por dentro, por isso eles são como são por fora. Ela não. Ela disfarçou o exterior para fazer brotar do interior o que nela havia de nobre: o altruísmo.
Nós, os crentes.
Cortar na própria carne às vezes faz bem. Maria Quitéria deve servir-nos como exemplo. Nós também temos os nossos problemas crônicos.
Hoje, as coisas na Igreja Evangélica Brasileira estão assim: pastor denuncia pastor presidente de Convenção por causa de mal uso de recursos; temos casos de pastores pedófilos; há caso de pastor-profeta dizendo que Deus mandou que ele convocasse as pessoas para receberem “milagres” em suas vidas a partir da doação, depositada em uma de suas contas o valor de R$ 7,00 [que milagre barato]; temos os líderes personalistas, dotados de sentimentos e comportamentos “diotrefinos” [relacionado a Diótrefes]; há o misticismo pagão, muitas vezes igual ou pior ao medieval que engana – isso nos moldes dos enganos dos políticos brasileiros – os incautos, etc. Tudo isso produzido pelos crentes disfarçados de discípulos do Cristo que, não demoram muito, mostram como é o mundo interior deles. São os “Caims”, “Balaãos” e “Corés”, personalidades disfarçadas que “são como árvores murchas, infrutíferas, duas vezes mortas, desarraigadas; ondas impetuosas do mar, que escumam as suas mesmas abominações” (Jd 11, 12).
O quadro é assustador, mas é real, factual – tanto aqui, como ali. Eu não sou do tipo de pessoa pessimista. Também não poderia ser, visto acreditar no poder transformador do Evangelho. Por isso, gostaria de mostrar uma saída para estes tipos de personas non gratas que estão em evidência neste país.
Gostaria de dizer a elas, nesta data tão aliviçareira e inspiradora, que busquem se revestir de “Soldado Medeiros” quanto às suas motivações simplíces (Maria Quitéria acabou a vida no anonimato), verdadeiras e nobres. É possível experimentar, de dentro para fora, as benesses sacrificiais que realidades éticas como a verdade e a nobreza produzem. Saibam senhores, se vocês buscarem a todo custo essas coisas e as viverem, já estará de bom tamanho para nós, Brasil e Igreja.
Gratos.
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