Sobre Alienação

alienadoPor Zwinglio Rodrigues

Por várias vezes eu ouvi dizer que a universidade não seria um bom lugar para os crentes estarem porque ingressando nela eles corriam sérios riscos de perderem a fé. Eu já partilhei (observe o tempo do verbo) dessa opinião.

Eu tive um professor, doutor em educação, que é crente. Em uma de nossas muitas conversas tratamos sobre a possibilidade do ingresso em uma universidade contribuir para a perda da fé de um crente. Ele me falou de dois conhecidos deles que se tornaram agnósticos. Mas, de igual modo, ele falou também de outros que mantiveram a sua fé intacta. Ele é um desses.

Eu conheço muitos crentes que passaram pela acadêmia,  outros que continuam nela e que não negaram sua fé. Eu também sou um desses exemplos.

É evidente que sou da opinião de que tem a sua fé prejudicada aqueles que não processam bem o que ouvem em sala de aula e no universo acadêmico.

Para mim é exatamente a falta de cuidado nas análises das informações (re)passadas que alguns se deixam levar pelos sofismas e pelo racionalismo que impera nas universidades. A Estadual por onde passei é um “antro” marxista que não admite crentes, muito embora por lá existam muitos, graças a Deus.

Em todo o meu tempo passado por lá me abri por inteiro ao aprendizado, no entanto, me cerrei com mais dedicação ainda à possibilidade de me deixar levar pelos discursos ateístas, agnósticos e materialistas.

Por isso é que posso, nesse instante, reforçar a verdade de que perde a fé na acadêmia aquele que dela se descuida.

Também, para o seu espanto, talvez, posso afirmar que na acadêmia e nos estudos acadêmicos pode-se encontrar bens que na comunidade dos crentes não se encontra. Talvez você já esteja dizendo, como?

É isso mesmo!

Vou lhe dar um exemplo lamentável.

Eu tenho 20 anos que sou crente. Tive alguns pastores e diversos professores de Escola Bíblica, porém, eu não me recordo de nenhum deles me instruindo quanto ao meu direito à autonomia como sujeito, quanto à minha capacidade e necessidade de refletir, de ser bereano[1], de inquirir, de conferir até seus próprios ensinos e comportamentos à luz das Escrituras.

O  comum era sempre uma proposta de entrega da alma. Uma entrega da alma a Deus (nada mais correto e fundamental) e uma entrega da alma a eles (os líderes). Essa última proposta era e é perversa. Ela faz muito mal aos símplices.

Sempre fui orientado a respeitar meus líderes e a tê-los em tão alta conta que confrontá-los com questionamentos era o mesmo que se levantar contra o próprio Deus. Eu fui doutrinado, em algum sentido, para ser um sujeito sem autonomia e que não deveria pensar, refletir, mas sim obedecer, seguir a risca meus líderes. Eu tentava fazer isso, muito embora, por natureza, eu fosse (e ainda o sou) um “rebelde”.

Eu acredito que alguns desses meus líderes eram bem intencionados muito embora trafegassem pelas vias erradas quanto a essa questão que ora suscito. Porém, tenho certeza que alguns outros faziam por perversidade. Calar os mais perspicazes, os mais argutos, aqueles que estão interessados em inteirar-se é uma artimanha de alguns líderes eclesiásticos impositores, medrosos e tiranos.

Até antes da minha entrada na universidade eu era dado  à prática do dizer amém a quase tudo que me diziam.  Depois de chegar à acadêmia meu senso crítico foi se desenvolvendo de maneira positiva e eu fui me tornando “independente” e cada vez mais autônomo, me libertando assim de muitas cadeias do clero impostas sobre mim.

Eu preciso dizer aqui, para ser bem honesto, que eu também fui, em alguma medida, um líder desse tipo. Contudo, eu sei que fui assim porque aprendi assim; fui um bom aluno. Como já disse, nunca foi da minha natureza admitir ser domado, logo, sempre percebi que tentar domar alguém não é coisa boa para ninguém e, principalmente, aprendi que não é  ser cristão.

No universo acadêmico entendi que a ação-reflexão-ação (só para lembrar o educador Paulo Freire) é uma necessidade para todas as instâncias da vida.

Toda ação última deve ser a melhor e deve dar início à uma outra ação seguida da reflexão para que o melhoramento continue se dando longitudinalmente.

Assim, passei também a encarar a vida na Igreja tendo como ponto de partida a conscientização crítica fruto da dialética freiriana. É assim que todo crente dominado por líderes e sistemas eclesiásticos dominadores deveriam passar a viver. Essa é uma proposta do Evangelho de Cristo. Isso traz libertação.

Em um certo sentido, é uma lástima que essa libertação eu tenha encontrado na universidade e não na Igreja. Se deixarmos, a acadêmia nos aliena da fé sim, porém, pior que isso, é tornar-nos alienados dentro da comunidade fé.

Isso somente prova, ou não, que  podemos encontrar bens na universidade que, paradoxalmente, é verdade, podemos não encontrar na Igreja mesmo sendo dever dela oferecer-nos tais bens?

A música do poeta João Alexandre, É Poibido Pensar, mostra que mesmo depois dos meus 20 anos de crente ainda é uma prática entre os crentes a castração da reflexão e da autonomia das ovelhas de Jesus Cristo.  Bom, á que é assim,  deixo então uma pergunta: quem é mesmo que tem produzido alienação no coração dos símplices de coração?

Pensemos nisso!

Obs.: Qualquer semelhança é mera coincidência.

Nota:

[1] Ser um bereano é portar-se como os crentes de Beréia que conferiam nas Escrituras do Velho Testamento se o que pregavam Paulo e Silas procedia ou não (Atos 17:11).

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13 Comentários em “Sobre Alienação”

  1. Daladier Lima  on Outubro 11th, 2009

    Penso que o maior problema neste caso é que se imprime o estilo teocêntrico da igreja à liderança, ecoando os erros papais. Outrossim, é preciso centralidade, porque a igreja não é democrática em sua essência. Jesus disse uma frase enigmática neste sentido: Sem mim nada podeis fazer. A dicotomia entre pensar e agir, fazendo o que é certo segundo a Bíblia, é que é o problema central.

  2. Ivan Cordeiro  on Outubro 12th, 2009

    Quem perde a fé, talvez nunca teve.

  3. zwinglio rodrigues  on Outubro 12th, 2009

    Ev. Daladier, paz!

    A liderança é um bem necessário à vida da Igreja… o problema é que muitos confundem “alhos com bugalhos” e se perdem no meio (ou no início) do caminho… isso você destacou muitíssimo bem…

    Obs.: eu sou um visitante quase que diário do seu blog.

    Abraços!

  4. zwinglio rodrigues  on Outubro 12th, 2009

    Ivan, paz!

    É um prazer tê-lo por aqui!

    Perder sem ter é nada perder… porém, há alguns que pensam que a tem e quando dizem que a perderam pensam que algum dia a teve… seu breve comentário me fez lembrar da sua afirmação em um dos debates Melodia… você disse que um dos maiores campos missionários de hoje é a própria igreja…

    Abraços!

  5. Hermes C Fernandes  on Outubro 13th, 2009

    Muito pertinente sua reflexão.

    Parabéns pela qualidade do blog.

    Aproveito para lhe convidar a conhecer o meu blog, e se desejar também seguí-lo, será uma honra. Seus comentários também serão muito bem-vindos.

    http://www.hermesfernandes.blogspot.com

    Te espero lá!

  6. zwinglio  on Outubro 13th, 2009

    Hermes, paz!

    Obrigado por você ter visitado Dokimos e por ter comentado por aqui…

    Estou agora indo ao seu blog… também vou linká-lo…

    Abraços!!

  7. Ednaldo  on Outubro 23rd, 2009

    Paz Ap. Zwinglio, tô promovendo os pastores!!!!

    Não sei se serve para alguma coisa, estou me referindo a minha opinião, mas gostei muito desta tua reflexão, Zwinglio!

    Acho interessante a tua cololação sobre os ensinos de EBD. Sempre que recebo a oportunidade para ensinar algo numa das classes, sou levado a mostrar a necessidade de se ser crítico a tud o que se ouve, agindo como os bereianos, ou bereanos, explico que os falsos mestres são falsos, mas também são mestres, principalmente na arte de distorcer a verdade.

    Se me permitir gostaria de copiar para o meu blog, e se não permitir, me processe, porque vou copiar da mesma forma.

    Fica na Paz,

    Ednaldo.

  8. zwinglio  on Outubro 23rd, 2009

    Bp.Ednaldo, paz!

    Primeiro… apóstolo não, por favor!!

    ahahaha

    Quanto a copiar… desta vez não vou lhe processar… hahaha

    Abraços meu bom irmão!!

  9. Ednaldo  on Outubro 28th, 2009

    Viva!! O Blog que havia sido abduzido, voltou!!!

  10. Marcia gizella  on Outubro 28th, 2009

    IHH!!!!
    Voltou!!!!

    AH Pastor, eu publiquei teu post, mas não me processa não que eu sou dona de casa desempregada e tenho dois filhos!!!(risos)

    Eu achei este post maravilhoso, adimiro você Pastor, pela sua coragem, ousadia, humildade,
    Você é corajoso o suficiente para dizer a nós ovelhas, que vocÊ como líder não é dono da razão, e que temos de questioná-lo…..

    Isso é difícil em mei a tantos ditadores donos da razão….

    Deus te abençoe!!!!!!!!

    abraço fraterno!!

  11. zwinglio  on Outubro 29th, 2009

    Marcia Gizella, paz!

    Pode deixar que não vou mover nenhum processo contra você /hahaha/… todos os posts deste blog podem passar pelo Ctrl C Ctrl V a qualquer momento e por quem assim desejar fazer…

    No demais, obrigado pelas boas palavras…

    Abraços!

  12. dANIEL  on Outubro 30th, 2009

    Muito bom o post pastor.
    Parabéns.

  13. Gicélia cotrim  on Dezembro 6th, 2009

    zwinglio,

    Muito sábia as suas palavras.

    Abraçossss


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