Jesus Cristo, Deus, e os “deuses salvadores” Pagãos – Parte 1

cristianismo1-150x1501Na quinta-feira da semana passada (28/08/08), um estudante universitário, cético, antisobrenaturalista, questionou-me a respeito da semelhança entre a suposta (segundo ele) historicidade do Jesus Cristo apresentado no Novo Testamento e alguns elementos mitológicos pertencentes às religiões pagãs.

Devido a dificuldade de nos articularmos em uma conversa mais detida por causa das circunstâncias do momento que nos envolviam, dei algumas breves explicações a ele, e prometi, que em uma ocasião oportuna, voltaríamos a tratar do assunto.

A interpelação dirigida a mim pelo acadêmico é comumente feita aos cristãos que estudam em universidades e faculdades. Relatos de histórias de ressurreição, nascimentos miraculosos, salvadores padecendo em agonias, etc., encontrados nos anais das religiões antigas, são levantados com vistas a reduzir a meras cópias os eventos relacionados a Jesus Cristo registrados no Novo Testamento.

Para os teólogos liberais, como K. L. Schmidt (1919), M. Dibelius (1919) e R. Bultmann (1921), os cristãos primevos transfiguraram um Jesus puramente humano em um ser sobrenatural a partir dos seus conhecimentos que eles tinham da literatura religiosa pagã com seus deuses sofredores, martirizados. Eles propõem que os escritores neotestamentários se valeram da historiografia antiga (obras dos escritores gregos e romanos, por exemplo) para apresentar um Jesus que “nunca existiu realmente” (Albert Schweitzer, 1948). Os céticos também questionam o fato de nós cristãos acreditarmos no nascimento virginal de Cristo, Sua ressurreição, etc, mas não crermos nos relatos sobre alguns deuses salvadores como Dionísio, por exemplo. Para eles, isso é uma incongruência.

Para colocar as coisas nos seus devidos lugares, e para oferecer subsídios argumentativos sobre o assunto àqueles que lerem este texto, passemos à uma confrontação entre alguns acontecimentos relacionados a Jesus Cristo narrados no Novo Testamento e algumas das narrativas pagãs sobre os seus deuses, heróis, fiosófos e alguns de seus ritos.

Um Nascimento Miraculoso

Em Lucas 1:31, 34-35, 2:4-7 encontramos a visitação do anjo a Maria para dizer-lhe que “… conceberás e darás à luz um filho a quem chamarás pelo nome Jesus” (v 31). De acordo com o ser angélico, isso se daria a partir de uma ação do poder de Deus (vv 34-35). Como sabemos, essa palavra angélica concretizou-se (2:4-7).

Diógenes Laércio (3° século a.D.)[1], na descrição do nascimento de Platão, diz que este teria nascido da união entre Perikitione e o deus Apolo. Uma parte do fragmento que relata o mito diz o seguinte: “…Ariston (marido de Perikitione) tentou desesperadamente (ênfase nossa), mas não teve sucesso em engravidá-la).”[2] Observe que Perikitione já tinha mantido relações sexuais com o seu esposo. Isso significa dizer que quando ela ficou grávida do deus Apolo ela já não era mais virgem.

Diferentemente, Maria concebeu quando ainda era virgem: “… Como será isto, pois não tenho relação com homem algum?” (Lc. 1:34).

A lenda do nascimento de Alexandre o Grande diz que ele teve como pai o deus Zeus-Ammon e como mãe a humana Olímpias. Diodorus Siculus[3] fala sobre o nascimento de Herakles, filho de Zeus e Alkmene: “Quando Zeus deitou-se com Alkmene, ele triplicou a duração da noite; e no espaço maior de tempo que passou gerando a criança, ele pressentiu o poder excepcional do filho que seria concebido.”[4]

Pelo menos duas diferenças cruciais podem ser notadas entre os relatos dos mitos pagãos e a narrativa bíblica da concepção milagrosa de Jesus Cristo de Nazaré.

1ª A relação sexual entre uma divindade e uma mulher não é chancelada pelo Novo Testamento.

•No caso de Jesus Cristo, o que encontramos é um ato criativo (nunca um ato sexual) da parte do Espírito Santo. “O Deus que fez os céus e a terra é bastante capaz de levar uma mulher a engravidar de um modo que não é possível na natureza.”[5]

2ª Os nascimentos de Platão, Alexandre e Herakles não são claramente definidos como nascimentos virginais.

• “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho…” Mt 1:23.

Ainda poder-se-ia levantar aqui a questão da ausência de aspectos morais relacionados à vida das divindades míticas.

Em tempo, é fundamental salientar que as coincidências e semelhanças já demonstradas, e as que ainda serão, não implicam em provas finais de uma conexão proposital e de uma dependência inquestionável.

Continua

Notas e Referências Bibliográficas:

[1]Diógenes Laércio – Historiador e biógrafo dos antigos filósofos gregos.
[2]MCDOWELL, Josh; WILSON, Bill. Ele Andou Entre Nós. São Paulo: Candeia, p. 198.
[3]Diodoro Siculus – Historiador grego nascido na Sicília e que viveu no século I a.C.
[4]Mcdowell e Wilson, idem.
[5]STERN, David H. Comentário Judaico do Novo Testamento. Belo Horizonte: Editora Atos, 2008, p. 28.

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