Demonização de Crentes: Possessão?
No texto anterior fiz a abordagem da prática da libertação de crentes no período patrístico. Naquela oportunidade, trechos dos escritos de Niceta de Ramesiana, Cirilo de Jerusalém e Hipólito de Roma foram descritos para demonstrar que era corrente a aceitação do ensino que venho defendendo com esta série de textos.
Ao lançar mão do pensamento dos pais da Igreja não estou visando propor outra fonte de testemunho que se iguale às Escrituras quanto ao nível de autoridade inspirativa. Não vacilo em momento nenhum em compreender que a Reforma Protestante estava correta ao estabelecer a doutrina Sola Scriptura. Todavia, como já demonstrei claramente nos textos anteriores que o ensino da demonização de crentes está presente na Palavra de Deus – e nesse fundamento descanso inabalavelmente –, não julgo improcedente, partindo da autoridade da Bíblia antes de mais nada, buscar apoio em um período da história da Igreja tão fértil quanto ao pensar teológico.
Dito isso, quero agora contestar o uso da terminologia possessão por algumas traduções da Bíblia.
A palavra em questão dá-nos a idéia de que são os espíritos malignos que possuem o crente, quando na verdade é o crente que os possuem. Isso é importante porque alguns dos que não aceitam a demonização de crentes não concebem a possibilidade de um servo do Senhor ser possuído integralmente – espírito, alma e corpo – por demônios. Sobre essa resistência concordo com aqueles que assim se posicionam.
Mark Bubeck, um pastor batista, diz-nos que “a palavra possessão, embora tradicional, não é uma expressão da língua original.”[1]
O teólogo Wayne Grudem diz a mesma coisa: “possessão demoníaca é uma expressão infeliz que se insinuou em algumas traduções da Bíblia, mas que na verdade não espelha bem o texto grego.”[2]
Mas, as traduções AC, ARA e EC, trazem, em Lucas 8:27, a palavra possesso.
“Logo ao desembarcar, veio da cidade ao seu encontro um homem possesso de demônios [...].”
Já a NVI e a TEB, observando bem o texto grego, traduzem, respectivamente, o fragmento do versículo em questão assim:
“Quando Jesus pisou em terra, foi ao encontro dele um endemoninhado daquela cidade [...].”
“Quando ele descia à terra, veio ao seu encontro um homem da cidade que tinha demônios [...].”
Nos textos gregos as palavras usadas são:
Daimonizomenous – seu significado é endemoninhado (Mt 8:16, 8:28, 12:22, 15:22).
É surpreendente o fato de que traduzindo daimonizomenous em Mateus 8:16 e 12:22, Rienecker e Rogers (1995, p. 26)[3] dê, respectivamente, como significado, “possuído por um demônio ou espírito mau“, “estar possesso por um demônio”. Na página 35 eles traduzem a mesma palavra já com mais cuidado, mas, mesmo assim, acabam cometendo o mesmo erro ressaltado por Bubeck e Grudem (daimonizomai, “estar endemoninhado, possesso por um demônio.”)
Exei – significa “ter” demônios (Mc 3:22, 7:25, 9:17; Lc 4:33, 8:27, 13:11; Jo 8:48; At 16:16).
En – significa “dentro de” ou “com” (Mc 1:23, 5:2; At 19:16).[4]
O Dr. Ed Murphy[5], didaticamente, alista algumas razões que sugerem o uso do termo possessão como uma ação inconveniente.
1- A possessão refere-se ao recebimento voluntário de um espírito controlador, por parte de algum médium espírita;
2- Possessão implica em total propriedade;
3- Possessão também dá a entender ausência de responsabilidade;
4- A possessão também conjura a imagem dos tipos mais severos de demonização.[6]
Murphy (p. 61) diz também que “a prática tradicional dos tradutores bíblicos, ao traduzirem as várias expressões gregas que descrevem a demonização por meio da possessão demoníaca, nada tem produzido senão resultados negativos, tanto para a Igreja como para os afligidos pelos demônios.”
Notas e Referências Bíblicas:
[1] BUBECK, Mark. O Adversário. São Paulo: Editora Mundo Cristão, p. 84.
[2] GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, p. 344. 1990.
[3] RIENECKER, Fritz, ROGERS Cleon. Chave Lingüística do Novo Testamento Grego. São Paulo: Vida Nova, 1995.
[4] ANDRADE, Milton Azevedo. Vida em Abundância! Através da Libertação e Quebra de Maldições. Vinhedo-SP: IFC, p. 195, 2000.
[5] É o vice-presidente e diretor da Internacional Ministry Team da Overseas Crusades. Ele ensina sobre a Bíblia e sobre missões, por meio expediente, no Colégio Bíblico de San José e treina líderes evangélicos quanto á guerra espiritual pelo mundo inteiro. Sendo ex-missionário na América Latina, o Dr. Murphy é autor de três livros.
[6] WAGNER, C. Peter, PENNOYER Douglas (org.). A Luta Contra os Anjos do Mal. São Paulo: Unilit, p. 61.
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