Demonização de Crentes: Libertação de Crentes no Período Patrístico

combate espiritualNos textos anteriores ocupei-me em demonstrar que há apoio escriturístico para o ensino da demonização de crentes. Além de explicar algumas referências bíblicas com mais detalhes, também fiz citações de outras passagens que, identicamente àquelas, dão o tom ao ensino proposto.

Ninguém pode dizer que as Escrituras não apresenta-nos casos de servos do Senhor demonizados, mas, é possível sim afirmarmos que não há uma referência, objetiva ou não, que negue tal possibilidade. Desconheço a existência de um versículo que sustente a impossibilidade de um genuíno crente, debaixo de qualquer situação de pecado, ficar demonizado.

Neste texto que apresento agora desejo mostrar que a Igreja dos primeiros séculos tinha como hábito libertar os novos convertidos dos vínculos e das presenças dos demônios em suas vidas.

Todos aqueles neófitos advindos da idolatria, dos contatos com as artes mágicas, do paganismo, não podiam ser batizados antes de observarem todo um ritual de libertação e de desligamento dos contatos passados com as forças das trevas. Essa prática tinha uma posição de destaque entre os cristãos primitivos.

Para iniciar essa demonstração quero citar o que escreveu Hinson e Siepierski.

“Por volta de 200 d.C., a igreja oferecia um programa intensivo que almejava preparar o cristão em seu combate espiritual contra os principados e potestades. Por trás desse objetivo estava o seguinte raciocínio: antes de se tornar cristão, acreditava-se, o convertido era súdito de satanás, sendo literalmente, e não apenas em teoria, mantido cativo. Isso era verdade em relação a todos os cidadãos do “mundo”, a esfera dominada por satanás. O caráter e os hábitos desses cidadãos tinham sido moldados por poderes demoníacos; estavam servindo a satanás em suas vocações e ocupações. Algumas vocações, particularmente, representavam os interesses de satanás – feitiçaria, confecção de ídolos, corridas de cavalos, combates de gladiadores, prostituição, alcovitamento, ensino em escolas pagãs, etc.

Quando uma pessoa se tornava cristã, deveria quebrar o jugo dos espíritos e não deixar nenhum vestígio do controle deles, para que ela pudesse se submeter totalmente a Cxristo e participar em seu reino. O jugo de satanás era tão firma sobre os mágicos, por exemplo, que no século III, o cismático bispo Hipólito, de Roma, não permitia sequer que eles recebessem instruções preliminares. No geral, entretanto, a igreja aceitava todos que quisessem mudar seus hábitos e ocupações, certa de que Cristo poderia verdadeiramente transformar a vida deles.

Mas, uma vez que a igreja aceitava um dos escravos de satanás, investia com toda a sua força para libertá-lo dos espíritos.

A renúncia a ‘satanás, sua pompa e seu serviço’, olhando para o Ocidente, verbaliza o rompimento; o reconhecimento de Cristo, olhando para o Ocidente, completava a demonstração de uma total troca de fidelidade. Teatro, corrida de cavalos, caça, oração em templos de ídolos, adoração de ídolos, advinhação, leitura de vôos de pássaros, uso de amuletos e todas as outras coisas que pertenciam à ‘pompa’ e ‘serviço’ de satanás tinham de acabar. Tais coisas, Niceta de Ramesiana explico, ‘são as correntes da serpente, as quais são algemadas na alma das pessoas e as levam para a prisão do inferno’. Quando uma pessoa renuncia a satanás, arremete as correntes para trás de suas costas na face do inimigo.[1]

Em Atos 8:9-24 há o registro do caso de um homem que deixara as artes mágicas para crer em Jesus Cristo. Esse homem chamava-se Simão. No versículo 9 somos informados de que Simão era um mago, um feiticeiro. Depois da prédica de Filipe e de todos os sinais e milagres que ele fizera em nome do Senhor Simão convertera-se (v 13).

Há um debate sobre a conversão de Simão. Alguns afirmam que ele não se convertera. Outros já admitem que sua conversão foi genuína. Eu, particularmente, adoto essa última posição porque a primeira não pode ser comprovada escrituristicamente.

O Novo Dicionário da Bíblia (1995, p. 1526)[2] afirma que:

“No movimento das massas, que atendiam à pregação de Filipe, Simeão professou conversão e foi batizado. Lucas emprega sua expressão regular ‘creu’ e não há razão para duvidar-se da sinceridade de Simão até êsse ponto.”

As traduções EC, NVI, AA, RC, NTLH e a RV, dizem que Simão “creu” (episteusen). A TEB diz “se tornou crente”.

Elementos escriturísticos que atestam uma real conversão de Simão:

Crer e Confessar

“Se com tua boca confessares a Jesus como Senhor, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, será salvo.

Porque com o coração se crê para justiça, e com a boca se confessa a respeito da salvação” (Rm 10:9-10).

Simão experenciou essas realidades. O texto diz que ele “creu” e foi “batizado” (At 8:13). Em seu batismo,Simão confessou a Jesus como Senhor. Assim, ele cumpriu os requisitos destacados por Paulo no texto aos Romanos.

Arrependimento

“Respondendo, porém, Simão lhes pediu: rogai vós por mim ao Senhor para que nada do que disestes sobrevenha a mim” (v 24).

Pedro repreendera a Simão por causa do seu erro (vv 20-23). Entendendo que tinha cometido uma blasfêmia,ele não mais propõe a simonia como no caso da doação do Espírito Santo. Ele agora humilha-se pedindo que Pedro interceda em seu favor junto a Deus.

Assim sendo, temos uma prova de que Simão é um daqueles neófitos primitivos citado por Hinson e Siepierski como necessitando de libertação. Ele cometera um erro gravíssimo que tinha relação direta com o seu antigo estilo de vida. Pedro diz que Simão tentara comprar “o dom de Deus” (v 20) porque ele estava “em fel de amargura e laço de iniqüidade” (v 23).

Esse “laço de iniqüidade” que prendia a Simão não foi quebrado imediatamente após a sua conversão e Pedro reconhece que ele ainda estava, em algum nível, aprisionado pelos laços  da feitiçaria (demônios?). Teríamos aqui um outro caso de demonização de crentes?

Nas Catequeses Mistagógicas de Cirilo de Jerusalém (IV século) encontramos descrita a seguinte instrução aos novos convertidos:

Renúncia a Satanás

“Quero também falar-vos porque estais voltados para o Ocidente, pois é necessário. O Ocidente é o lugar das trevas visíveis e como aquele [satã] é trevas, tem o seu poder nas trevas. Por essa razão, simbolicamente olhais para o Ocidente e renunciais a este príncipe tenebroso e sombrio. O que então cada um de vós, de pé, dizia? Renuncio a ti, satanás, a ti mau e crudelíssimo tirano: já não temo, dizias, a tua força. Pois Cristo a destruiu, fazendo-me participe de seu sangue e de sua carne, a fim de abolir a morte pela morte e eu não estar eternamente sujeito à escravidão. Renuncio a ti, serpente astuta e capaz de todo mal. Renuncio a ti, que armas insídias e, simulando amizade, praticaste toda sorte de iniqüidade e sugeriste a nossos primeiros pais a apostasia. Renuncio a ti, satanás, artífice e cúmplice de todo mal.”

Na Tradição Apostólica do bispo Hipólito de Roma (160-235), discípulo de Irineu de Lyon, está escrito:

Sobre os Batizandos

“Sejam impostas as mãos diariamente sobre eles a partir do momento em que foram separados e sejam, ao mesmo tempo, exorcizados. Aproximando-se o dia do batismo, o bispo exorcizará cada um deles, para saber se é puro. Se algum deles não for bom ou puro, será colocado à parte, pois não ouviu a Palavra com fé, já que não possível que o estranho se oculte para sempre.”

Sobre o Batismo

“Ninguém deve descer às águas portando objetos estranhos. No instante previsto para o batismo, o bispo renderá graças sobre o óleo que será posto em um vaso e será chamado de óleo de ação de graças. Tomará também um outro óleo que exorcizará e será denominado de óleo de exorcismo. Então o diácono trará o óleo de exorcismo e ficará à esquerda do presbítero; outro diácono pegará o óleo de ação de graças e ficará à direita do presbítero. Acolhendo cada um dos que recebem o batismo, manda renunciar, dizendo: “Renuncia a ti, Satanás, a todo teu serviço e a todas as tuas obras”. Terminada a renúncia de cada um, ungirá com o óleo de exorcismo, dizendo-lhe: “Afaste-se de ti todo espírito impuro.”

Quem disser que o ensino sobre a demonização de crentes convertidos é um modismo estará demonstrando um total desconhecimento das informações sobre o assunto deixadas pela Igreja primitiva. A esta altura da minha defesa alia-se as bases escriturísticas por mim exploradas, o testemunho da patrística.

Referências Bilbiográficas:

[1]HINSON, Glenn e SIEPIERSKI, Paulo. Vozes do Cristianismo Primitivo. São Paulo: Sepal, p. 70.
[2]DOUGLAS, J. D. (org.). O Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1995.

Abreviaturas:

EC – Edição Contemporânea
NVI – Nova Versão Internacional
AA – Almeida Atualizada
RC – Revista Corrigida
NTLH – Nova Tradução na Linguagem de Hoje
RV – Reina Valera (tradução espanhola)

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