Demonização de Crentes: Direito de Posse e Direito de Propriedade

combate espiritualConcluí o texto anterior citando 1 João 3:8 que diz: “Quem comete pecado é do diabo [...]”.

A ARA traduz esse versículo assim: “Aquele que pratica o pecado procede do diabo [...]”.

Perceba a diferença entre as traduções. Enquanto a ARC usa o verbo ser, a ARA traz o verbo proceder. Traduções como a AA, ACF, EC e a TEB concordam com a ARC. Por alguma razão, os revisores da ARA traduziram erradamente o verbo “é” (ek no grego) por “procede”.

Desta maneira, João está dizendo que o diabo tem um direito legal sobre quem peca. É evidente, por uma análise contextual, que o apóstolo está falando de, e, para crentes (vv 3, 5-7, 9).

Esse direito do qual estou falando não pode ser o de propriedade porque os crentes são “raça eleita, sacerdócio real, nação santa povo de propriedade exclusiva de Deus [...]” (1Pe 2:8). Ora, se somos propriedade de Deus, em que sentido podemos nos tornar pertencentes ao diabo quando pecamos? No sentido de posse. A dinâmica que faz isso se tornar uma realidade é a seguinte:

1°) O crente desconsidera este alerta: “Sede sóbrios e vigilantes. O diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge, procurando alguém para devorar” (1Pe 5:8);

2°) Despreza-se a urgência da vigilância determinada acima assim: “[...] Todo o que comete pecado é escravo do pecado” (Jo 8:34). A vigilância que se deve ter é em relação ao diabo e ao seu único instrumento de queda que é o pecado;

3°) Ao dar pouca importância às verdades declaradas nos versos citados acima, o crente quebra o seguinte princípio: “Nem deis lugar ao diabo” (Ef 4:27);

4°) Consumada a infração descrita logo acima, o diabo, legalmente, assume o seu direito de posse (o lugar que não deveria ser dado): “Quem comete pecado é do diabo [...]” (1Jo 3:8).

Possa ser que esse raciocínio não seja fácil de ser digerido, mas é o que indicam as referências citadas.

É necessário dizer aqui com todas as letras que esse direito de posse do qual estou falando é demarcado, limitado. Ele está restrito à área da vida correspondente ao pecado consumado e continuado.

Um exemplo claro de como o diabo (representado pelos demônios) pode apropriar-se de áreas da vida de um filho de Deus está registrado em Apocalipse 2: 18-28.

Jezabel (nome real ou simbólico, não vem ao caso), uma mulher (personagem real) com algum tipo de influência dentro da igreja de Tiatira, gnóstica, corrupta e imoral, conseguiu levar para dentro da igreja o adultério (praticado também largamente na adoração pagã) e a idolatria. Não há nenhuma indicação no texto de que essa mulher fosse filha de Deus. Porém, quanto aos seguidores, não há dúvidas de que havia entre eles filhos, servos de Deus: “[...] mas ainda seduza os meus servos a praticarem a prostituição e a comerem coisas sacrificadas aos ídolos” (v 20).

De que maneira alguns servos do Senhor pode encontrar-se envolto com a prática de todas as formas de perversão e excessos sexuais, bem como com a idolatria aberta, franca? Isso só é possível quando eles movimentam-se segundo a dinâmica traçada anteriormente. No caso dos filhos de Deus de Tiatira, eles abriram-se nas dimensões mais sérias da vida cristã que são a sexualidade e a espiritualidade. Dando lugar ao diabo, este tratou de enviar seus demônios para ocuparem aquelas dimensões. Ou será que alguém irá dizer que não havia associação entre os graves pecados daqueles crentes e a atuação dos demônios?

Na vida daqueles servos do Senhor cumpriu-se perfeitamente o ensino das Escrituras:

“[...] Todo o que comete pecado é escravo do pecado” João 8:34.

O adultério (fornicação) daqueles crentes os escravizava. Esse nível de escravidão é tão além de nossa percepção racional, envolve tantas coisas, que Paulo disse: “Ou não sabeis que o homem que se une à prostituta, forma um só corpo com ela? Porque, como se diz, serão os dois uma só carne” (1Co 6:16). Um ligadura misteriosa se estabelece entre o crente e a prostituta. Aí está envolvida uma ligação que transcende o físico. Ela chega ao campo da psique e da espiritualidade humana. Neste envolvimento, é evidente que está em curso a ação do “espírito de prostituição” (Os 5:4).

A idolatria também os escravizava. Comer das coisas sacrificadas (Ap 2:20) era uma forma de associação com os demônios: “Antes digo que as coisas que eles sacrificam, é a demônios que as sacrificam, e não a Deus; e eu não quero que vos torneis associados aos demônios” (1Co 10:20). “Associados aos demônios” (ARA), “entreis em comunhão com os demônios” (TEB), “sejais participantes com os demônios” (EC, ARC), são expressões que indicam um estado de escravidão espiritual que brota do próprio espírito humano – dimensão da adoração a Deus, agora comprometida com a adoração aos demônios. Paulo escreveu:

“Tendo, pois ó amados, tais promessas, purifiquemo-nos de toda imundície, tanto da carne, como do espírito, aperfeiçoando a nossa santidade no temor de Deus” (2Co 7:1).

Perceba que o espírito do crente pode ser contaminado. Não esqueçamo-nos que o apóstolo estava escrevendo para crentes e que ele se inclui (purifiquemo-nos) neste processo de santificação.

Schlatter (apud RIENECKER e ROGERS, 1995, p. 351)[1] explica o que significa purificar-se da carne e espírito – no grego sarkos kai pneumatos “os termos (carne e espírito) se referem ao homem exterior e interior, os quais eram contaminados pelo contato com forças pagãs”. Essa contaminação se dá pela presença, ocupação de demônios nestas dimensões. É interessante que Jesus chamou por diversas vezes os demônios de espírito imundos (Mt 12:43-45; Mc 1:23, 26-27; 3:11, 30; 5:12-13; 6:7; Lc 4:36; 6:18; 8:29).

“Nem deis lugar ao diabo” (Ef 4:27).

O que fizeram os crentes de Tiatira a quem o Senhor chama de servos? Deram lugar ao diabo que se fez representar em suas vidas pela presença do demônios. O “espírito de demônio impuro” (Lc 4:33) que atua na área do adultério, da fornicação, juntamente com o “espírito de demônio impuro” que atua no campo da idolatria, adquiriram o direito de posse, e não de propriedade, no nível mais profundo da composição do ser de um crente, que é o seu espírito.

Referência Bibliográfica:

[1] RIENECKER, Fritz, CLEON Rogers. Chave Lingüística do Novo Testamento Grego. São Paulo: Vida Nova,1995.

Abreviaturas:

ARA – Almeida Revista e Atualizada
ARC – Almeida Revista e Corrigida
TEB – Tradução Ecumênica da Bíblia
EC – Edição Contemporânea
AA – Almeida Atualizada
ACF – Almeida Corrigida e Fiel

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