Demonização de Crentes: Direito de Posse e Direito de Propriedade

combate espiritualNo texto anterior, demonstrei, a partir do cruzamento de referências bíblicas, que alguns crentes da Igreja de Tiatira padeceram de uma atividade demoníaca bastante severa em suas vidas. Ali também eu deixei claro que essa atividade escravizadora se deu de dentro para fora, pois a nós crentes é dito que não devemos dar lugar ao diabo para que ele, representado por demônios, não penetre nesse topos (lugar, qualquer área geográfica).

Com esse novo texto desejo apresentar outras Escrituras que indicam a possibilidade da real presença de demônios na vida de crentes genuínos.

Primeiramente, recorramos a 2 Timóteo 2:24-26:

“Ora, é necessário que o servo do Senhor não viva a contender, e, sim, deve ser brando para com todos, apto para instruir, paciente; disciplinando com mansidão os que se opõem, na expectativa de que Deus lhes conceda não só arrependimento para conhecerem plenamente a verdade, mas também o retorno à sensatez, livrando-se eles dos laços do diabo, tendo sido feitos cativos por ele, para cumprirem a sua vontade.”

Será que esses a quem Timóteo deveria instruir, disciplinar, são autênticos filhos de Deus? Eu acredito que sim. Mesmo que não exista uma afirmação objetiva sobre isso, eu penso que há, pelo menos, um indício favorável à minha crença.

A expressão “retorno à sensatez” é a tradução do termo grego anenepho que significa “recuperar a sobriedade”, “readquirir o bom senso”[1]

Rienecker e Rogers (1995, p. 477)[2], traduzem assim anenepho: “voltar a ficar sóbrio”, “retornar aos sentidos”.

Observe que aquelas pessoas aprisionadas pelo diabo um dia foram dotadas de bom senso, de sobriedade, de sentidos ajustados quanto à verdade. Essas condições podem perfeitamente apontar para um estado de conversão verdadeiro. Ademais, eles faziam parte do contexto eclesial e o texto parece mostrar que eles deveriam arrepender-se apenas no que dizia respeito aos falsos ensinos que levavam-nos a fazer a vontade do diabo.

Se alguém quiser afirmar que eles não eram crentes genuínos assim o poderá fazer. Contudo, parece-me que não há razões para se pensar desta maneira.

Estabelecida essa minha crença, entendamos a ação diabólica que puseram-nos em prisão.

Paulo, em sua primeira epístola endereçada a Timóteo, disse:

“Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios” (4:1).

Duas verdades devo destacar na referida passagem:

Primeira – A apostasia de alguns crentes. Champlin (1985, p. 318) diz que a palavra grega usada para “alguns apostatarão” é aphistemi. Rienecker e Rogers idem (1995, p. 463). Ambos traduzem-na como “desviar-se”, “retirar-se”. Estes últimos tradutores ainda dizem que “o genitivo ‘da fé’ indica que eles deixaram a fé, e é usado no sentido objetivo, isto é ‘doutrina cristã, sã doutrina’”. Em outras palavras, as pessoas que apostataram eram crentes verdadeiros. Eles deixaram a posição anterior de uma vida de fé para unirem-se à uma oposta. O que aconteceu com eles foi o que começou a acontecer com aqueles indivíduos aos quais Timóteo deveria ajudar a se livra do laço do diabo (2Tm 2:24-26).

Segunda – O estado de apostasia tornara-se uma realidade concreta por causa da ação dos demônios naquelas vidas. O princípio paulino de “não dar lugar ao diabo” faltou àquelas pessoas. Ao ceder espaço aos espíritos enganadores aqueles crentes foram dominados internamente e conduzidos ao abandono da fé objetiva.

Esses espíritos enganadores, no dizer de Guthrie e Fairbairn (apud RIENECKER e ROGERS, 1995, p. 463), “são, evidentemente, espíritos sobrenaturais que trabalham através de indivíduos, e estão em contraste com o Espírito mencionado logo antes.”

Observe que os espíritos que enganaram os crentes apóstatas atuaram a partir da vida de outros sujeitos. Mas, aqueles crentes que foram enganados abriram brechas em suas vidas e os demônios entraram (Mt 12:43-45), levaram à efeito seus propósitos e os tornou como àqueles que os ludibriaram.

Traçando um paralelo com 2 Timóteo 2:24-26, percebemos agora, com maior clareza, que o aprisionamento de satanás na vida dos crentes ali referidos se dava internamente, no entendimento, na consciência, nos sentidos, na vontade deles. Rienecker e Rogers (1995, p. 477), citando Guthrie e Kelly  dizem que o método do diabo é “nublar a consciência, confundir os sentidos e paralizar a vontade” (eles estavam comentando sobre 2 Timóteo 2:26). Ora, onde ficam a consciência, os sentidos e a vontade de um crente? Do lado de fora ou do lado de dentro deles?

É possível que os demônios mantenham atuações controladoras sobre os crentes do lado de fora. Mas, quando Paulo diz para não se dar lugar ao diabo (Ef 4:27) ele está tratando de um lugar dentro (vide versículo 26 que trata de emoções) da alma do crente. Ademais, todo falso ensino, é, caracteristicamente, diabólico em sua sabedoria (Tg 3:15).

Quando os demônios conseguiram penetrar na consciência dos apóstatas (1Tm 4:10) e quando eles penetraram na consciência daqueles que estavam em processo de apostasia (2Tm 2:24-26), eles estabeleceram fortalezas, sofismas e altivez.

“Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e, sim, poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus [...]” (2Co 10:4-5).

A maneira que o diabo usou para “nublar a consciência” dos crentes desviados e dos em processo de desvio foi implantando neles os demônios da mentira, do falso ensino, que se constituíram, metaforicamente falando, em fortalezas, sofismas e altivez.

Moulton e Milligan (apud RIENECKER e ROGERS, 1995, p. 359) dizem que a palavra fortaleza “nos papiros [...] tinham o significado de prisão.” Quem eram os guardiães da fortaleza construída para entenebrecer o entendimento e o pensamento daquelas pessoas? Certamente os demônios! Pelo (espírito de) sofisma que segundo Andrade (1998, p. 266)[3] pode ser definido como uma “argumentação falsa com aparência de verdade” (mentira travestida de verdade; o diabo é o pai da mentira e faz de pessoas presas à mentira, seus filhos – Jo 8:44), e pela altivez (vide a primeira parte desse estudo para entender a nomenclatura que dou aos demônios aqui), a fortaleza é protegida com vistas ao impedimento do retorno à sensatez.

É tão evidente que o domínio interno na vida dos crentes que desviaram (1Tm 4:1) e na vida dos crentes que estavam decaindo da graça (2Tm 2:26) era determinado por domônios que,  Plummer (em RIENECKER; ROGERS, 1995, p. 359), falando sobre a expressão “que se levanta contra o conhecimento de Deus”, diz que “a metáfora aqui é de paredes e torres em pé desafiantes.” Não vejo dificuldades em se entender que esse desafio destacado se dê por parte dos demônios de sofismas e de altivez que resguardam a fortaleza e buscam afrontar a Deus.

Eu não tenho dúvidas de que as três referências fundamentais (2Tm 2:24-26; 1Tm 4:1-2; 2Co 10:4-5) usadas em toda argumentação que desenvolvi nesse texto podem caminhar paralelamente. Elas estão interligadas por expressões como “conhecerem a verdade” (2Tm 2:24), “obedecerem a espíritos enganadores” (1Tm 4:1) e por “conhecimento de Deus” (2Co 10:4), por exemplo.

Hermenêuticamente falando, não penso existir nenhum desvio nesse cruzamento. Portanto, acredito ter oferecido mais uma prova de que o diabo, àquele a quem o crente não deve ceder lugar, pode adquirir o direito de posse na vida deste.

Referências Bibliográficas:

[1]CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento Interpretado Versículo Por Versículo. São Paulo: Milenium, vol. 5, p. 385, 1983.
[2] RIENECKER, Fritz, ROGERS, Cleon. Chave Lingüística do Novo Testamento Grego. São Paulo: Vida Nova, 1995.
[3] ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Dicionário Teológico. Rio de Janeiro: CPAD, 1998.

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