Demonização de Crentes: A Suposta Intocabilidade dos Crentes

combate espiritual“Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado; antes, Aquele nasceu de Deus o guarda e o maligno não lhe toca.”

A tradução usada acima é a de ARA. Nela, a frase “não vive em pecado” não está de acordo com o texto grego. Muito embora a NVI diga “não está no pecado” (semelhante ao que diz a ARA), ela traz como nota de rodapé a informação de que no grego o que consta é “não peca”. Ou seja, a tradução mais apurada seria “aquele que é nascido de Deus não peca” (ARC).

Champlin informa-nos que “o original grego diz aqui simplesmente, pecar, e não praticar o pecado”[1]. A TEB segue essa mesma tradução: “aquele que nasceu de Deus não peca mais.”

Em sendo a melhor tradução aquela que diz “não peca”, como aplicar 1 João 5:18 à um crente convertido visto que ele peca? Na verdade, o nascido de Deus não é o homem em nenhuma das dimensões do seu ser, ou seja, espírito, alma e corpo, pois as Escrituras informa-nos que por elas o pecado se manifesta mesmo depois que o homem se entrega a Cristo (1 Co 7:34; 2Co 7:1; 1Pe 1:22; Ap 18:14; Rm 6;12-13).

Na verdade, aquele que é nascido de Deus, que não peca e que caracteriza o crente como um homem regenerado é o novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” (Ef 4:24). Esse novo homem não pode ser o velho homem – espírito, alma e corpo – aprimorado, tornado novo. Essa nova vida, nova natureza, deve ir dominando o velho homem – essa dominação é caracterizada pelo despir-se deste e pelo revestir-se daquele – com as suas mazelas (Cl 3:8-10). É na integralidade do ser do crente que o velho homem está presente. É na integralidade do ser do crente que o novo homem deve ir avançando promovendo justiça e santidade. Enfim, é esse “que nasceu de Deus” que “não peca mais”. Nesse novo homem o maligno não pode tocar. Já no espírito, na alma e no corpo do crente a conversa é outra.

A seguir, transcrevo afirmações de teólogos e ministros que contrariam a idéia da intocabilidade do crente.

“Ainda que os demônios possam causar transtornos de muitos tipos às pessoas regeneradas, em quem habita o Espírito Santo, eles não podem impedir o propósito de Deus de salvar os seus eleitos, do mesmo modo que não podem evitar seu próprio tormento eterno.” J. I. Packer[2]

“[...] se alguém pergunta: ‘será que um cristão pode ser possuído por demônios?’, querendo na verdade dizer: ‘será que um cristão pode vir a ficar sob forte influência ou ataque de demônios?’, então a resposta teria de ser positiva [...]” Wayne Grudem[3]

“[...] precisamos asseverar que os demônios podem entrar no corpo de crentes que se demorem no pecado. A presença do Espírito Santo, por si mesma, não impede a demonização, tal como não impede que um crente caia em pecado.” Ed Murphy[4]

“Se satanás não pode afetar a Igreja, por que é recomendado à Igreja que se revista de toda a armadura de Deus? Por que deveríamos “resistir ao diabo”? Por que deveríamos “ficar firmes”? Por que nos deveríamos “manter sóbrios”? Que acontecerá se não agirmos assim?” Neil T. Anderson[5]

“Um crente pode ser afligido ou mesmo controlado quanto a certas áreas de seu ser [...]” Mark I. Bubeck[6]

“[...] devemos estar de sobre aviso, já que continuamente temos um inimigo nos ameaçando, e um inimigo mui atrevido, robusto em forças, astuto em enganos, que nunca se cansa de perseguir seus propósitos, está munido de quantas coisas são necessárias para a guerra, mui experimentado na arte militar; e não consintamos que a preguiça e o descuido se assenhorem de nós, senão, pelo contrário, com bom animo estejamos prontos para resistir-lhe [...] por isso afirmo que os fieis nunca jamais podem ser vencidos nem oprimidos por ele. É verdade que muitas vezes desmaiam, mais não se desanimam de tal maneira que não voltem a si; caem pela força dos golpes, mas não com feridas mortais. Finalmente, lutam de tal maneira durante sua vida, que ao final conquistam a vitória.” João Calvino[7]

“Soube que um missionário de um campo africano foi mandado de volta ao seu país pelo fato de crer na possessão de crentes. Doutra feita, deparei na África com um missionário, o qual esteve, ele mesmo, possesso por dezoito meses. Ele também havia negado a possibilidade da possessão de crentes. Por causa de sua própria experiência mudou de opinião e de posição teológica.Foram também muito significativos para mim os meus diversos encontros com o Dr. Edman, o antigo diretor da faculdade Wheaton College, dos Estados Unidos. Contou-me exemplos de sua antiga atividade missionária na América do Sul. Ele também estava convencido de que crentes podem se tornar possessos.Além disso, foi bastante esclarecedora para mim a opinião do Dr. Evans, que já deve ter seus 90 anos, se é que ainda está vivo. Vi-o, pela última vez, em 1962. Esta já idosa testemunha de Deus foi fruto do despertamento de Gales. Ele também defende a opinião de que crentes desobedientes podem tornar-se possessos. Eu mesmo, em minhas inúmeras viagens missionárias, tenho vários casos que parecem apoiar essa idéia. (…) Uma coisa que tive oportunidade de observar é que quem defende dogmaticamente a doutrina de que é impossível que crentes se tornem possessos, geralmente não tem experiência com casos de possessão. Quem trabalha em campos missionários onde abundam os possessos, geralmente concorda com a opinião do Dr. Edman, do Dr. Evans e de outros missionários. O missionário, que antes defendia a doutrina rígida de que crentes não ficam possessos, afirmou depois do seu próprio período de possessão: ‘Deus me ensinou uma lição e me curou do meu dogmatismo’”.Kurt Koch[8]

Qualquer conceito de intocabilidade do crente quanto à ação dos demônios sinaliza para um dogmatismo inimigo das Escrituras. A teologia neotestamentaria não admite uma proteção absoluta e a qualquer preço dos crentes.

Notas e Referências Bibliográficas:

[1]CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento Interpretado Versículo Por Versículo. São Paulo: Milenium, vol. 6, p. 301, 1983.
[2] PACKER, J. I. Teologia Concisa. São Paulo: Cultura Cristã, p. 66, 2004.
[3] GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, p. 346, 1999.
[4] WAGNER, C. Peter, PENNOYER Douglas. A Luta Contra os Anjos do Mal. São Paulo: Unilit, p. 67.
[5] Idem p. 139. Neil T. Anderson é professor associado de teologia prática e presidente desse departamento no Seminário Teológico Talbot, da Universidade de Biola, em La Mirada, estado da Califórnia. É autor do livro Vitória Sobre a Escuridão.
[6] BUBECK, Mark I. O Adversário. São Paulo: Mundo Cristão, p. 87.
[7] Extraído de SECRAI
[8] Idem.

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