Qual a origem da natureza imaterial (espírito e alma) do homem? Uma teologia antropológica responsável irá dizer que esta é uma pergunta de difícil resposta. Sabemos com convicção que a origem do corpo físico de um ser humano está relacionada ao instante da concepção, da fecundação do óvulo pelo sêmen. Mas, como o homem não é constituído apenas de matéria (corpo) e sim também de elementos imateriais (espírito e alma) segundo os ensinos das Escrituras, tentar responder a origem destes últimos se faz necessário.
Os teólogos cristãos tem sustentado três teorias para tentarem explicar a origem do espírito e da alma do homem. Estas teorias se dividem entre a teoria da preexistência, a teoria criacionista e a teoria traducionista.
Não vou me ater aqui a todas as três teorias porque a minha intensão com este texto é apenas expor minha posição sobre o assunto. Ficarão de fora desta exposição as teorias da preexistência e a teoria criacionista.
A teoria traducionista defendida por teólogos como Tertuliano, Agostinho, Shedd e Delitzsch, propõe que a alma e o espírito humanos de uma criança são herdados de seus pais quando do instante da concepção. Em outras palavras, é por geração natural que aqueles elementos imateriais são propagados. Algumas bases exegéticas para tal conceito são as seguintes.
A Bíblia, em Gênesis 1:26-27, 5:2, ensina-nos que o homem é uma espécie. Como tal, ao se reproduzir, o que se pode esperar é que o todo do ser humano, espírito, alma e corpo, seja propagado.
O texto de Gênesis 5:2 diz: “ [...] homem e mulher os criou, e os abençoou, e lhes chamou pelo nome de Adão [...]”. Perceba que tanto o homem, como a mulher, são reconhecidos pelo nome de Adão. O que isto pode significar? Pode significar que ambos estão sendo admitidos como uma espécie.
Quando as Escrituras dizem, “viveu Adão cento e trinta anos, e gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem [...]” (Gn 5:3), ela está reconhecendo uma geração integral (espírito, alma e corpo) de seu filho Sete (Gn 46:26; Sl 51:5; At 17;26; Hb 7:9-10).
Continua Deus ativo quanto à alguma criação imediata? A teoria criacionista irá responder que sim, explicando, consequentemente, que os elementos imateriais constituintes do ser do homem são criados diretamente por Deus. Ou seja, sempre que há a fecundação do óvulo pelo espermatozóide, Deus cria um espírito e uma alma novos e intactos.
Mas, tal afirmativa não estaria em oposição às Escrituras visto dizer ela que “havendo Deus terminado no sétimo dia a sua obra, que fizera, descansou nesse dia de toda a sua obra que tinha feito” (Gn 2:2). Ora, se Deus cessou a sua obra de criação imediata, torna-se embaraçoso afirmar que Ele ainda cria, diariamente e continuamente, o espírito e a alma de um homem concebido no ventre de sua mãe.
Para a teoria traducionista, a ação divina quanto a origem destes elementos imateriais se dá de maneira mediata e não imediata. Em outras palavras, quando dos pais, os filhos recebem o espírito e a alma pela geração natural, Deus está atuando indiretamente porque foi Ele mesmo quem determinara esse processo.
Se Deus não mais cria imediatamente, a teoria traducionista parece oferecer uma melhor explicação para a origem do espírito e da alma do homem quando admite o surgimento destes elementos a partir de uma causa secundária.
Teologicamente, o traducionismo trata com mais precisão a questão da doutrina da depravação espiritual e moral da humanidade. De Adão, passou-se à humanidade o pecado, realidade que está associada às partes imateriais (espírito e alma) e não material (corpo) do ser humano.
Quando Davi afirmou “ eu nasci em iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe” (Sl 51:5) ele estava dando-nos evidências de que fora de sua mãe – e de seu pai, obviamente – que ele recebera toda a sua inclinação para o pecado.
Sendo assim, há mais coerência no traducionismo do que na teoria criacionista que pode acabar fazendo de Deus, em algum ponto, o responsável pelo pecado na vida de alguém.
Com esses argumentos, e com outros que podem ser aludidos a partir das referências bíblicas citadas neste texto, se constrói a teoria traducionista. Contudo, é bom que se diga que esta teoria, como as demais, possui algumas dificuldades para se sustentar.
Um outro ponto que deve ser salientado aqui é que as Escrituras não são minunciosas quanto à origem do espírito e da alma do homem. Por estas razões, não ser dogmático quanto a este assunto é uma atitude inteligente. Mas, a meu ver, o traducionismo é a teoria mais aceitável e, por isso, a defendi nas linhas anteriores.





One Response
Leave a Reply